



Quase um mês depois de perder a esposa, Marta Kelly, aos 33 anos, Marcus Vinicius decidiu quebrar o silêncio e falar publicamente sobre os últimos dias da mulher com quem construiu sua família. Em um vídeo de aproximadamente três minutos, o viúvo relata situações que afirma ter presenciado durante a internação de Marta, fala sobre as dúvidas que ainda carrega e faz um apelo aos profissionais que participaram do atendimento da esposa: que contem tudo o que sabem sobre o que aconteceu. Por trás da busca por respostas está uma família que teve a rotina completamente transformada em poucos dias. Marta deixou três filhos órfãos de mãe, sendo dois deles ainda bebês. Marcus, que também tenta lidar com o próprio luto, agora precisa encontrar forças para seguir em frente e cuidar das crianças sem a companheira.
Marta morreu no dia 17 de agosto, depois de permanecer internada em estado grave após apresentar complicações de saúde na sequência de procedimentos cirúrgicos. Sua morte provocou grande comoção em Volta Redonda e nas redes sociais. O vídeo divulgado por Marcus começa justamente com uma imagem que ganhou um significado doloroso para a família. Marta aparece consciente, deitada em uma maca, pouco antes do procedimento. “Esses foram os últimos segundos de vida da minha esposa, de vida saudável. Porque dali em diante uma série de coisas aconteceram que levou ao fim da nossa família”, afirmou Marcus. Ao falar sobre o que aconteceu depois, o marido menciona os filhos e a obrigação de continuar, apesar da dor. “Hoje eu tenho três crianças. Eu tô assim… tenho que ser forte”, disse.
“O intuito não é acusar ninguém”
Apesar dos questionamentos que apresenta ao longo do vídeo, Marcus faz questão de afirmar que seu objetivo, naquele momento, não é responsabilizar uma pessoa, equipe ou instituição pela morte de Marta. Ele conta que está sendo orientado por advogados e que tem buscado equilíbrio para lidar com uma situação que mudou completamente sua vida e a dos filhos.
“O intuito desse vídeo não é acusar ninguém. Não é acusar a instituição, hospital, nada”, afirmou. Marcus também deixa claro que não possui conhecimento técnico na área da saúde. Por isso, não apresenta uma conclusão médica sobre o que provocou o agravamento do quadro da esposa. Seu relato se concentra naquilo que diz ter visto, ouvido e vivenciado enquanto acompanhava Marta. O viúvo afirma ainda que, depois da morte, passou a receber informações de diferentes pessoas sobre o período em que Marta esteve internada. Segundo ele, há questões que continuam sem respostas e que pretende abordar posteriormente.
“Eu vi o intestino dela ali”
Entre as lembranças que Marcus carrega daqueles dias, uma das mais marcantes envolve uma nova cirurgia realizada em Marta durante a internação. Segundo ele, o procedimento aconteceu na madrugada de sexta-feira para sábado. Marcus conta que acompanhava a situação ao lado de Janaina, prima de Marta, quando integrantes da equipe médica lhe mostraram um vídeo feito durante a intervenção. As imagens, de acordo com o marido, mostravam o abdômen da esposa aberto. “Eu não sou médico, mas eu vi o intestino dela ali”, disse Marcus. Ele afirma que ficou impressionado com a cena e que, naquele momento, chegou a questionar por que precisava assistir àquelas imagens. “Isso aqui é minha esposa. Por que estão me mostrando isso?”, relatou.
Marcus diz ter ficado com a impressão de que havia uma preocupação em demonstrar que o agravamento do quadro de Marta não estaria relacionado ao procedimento anterior. Essa é, entretanto, uma percepção relatada pelo próprio marido. O depoimento de Marcus, por si só, não permite estabelecer as causas das complicações apresentadas por Marta nem determinar eventual responsabilidade de profissionais ou instituições.
Um apelo a quem estava lá
É nos momentos finais do vídeo que o depoimento assume seu tom mais forte. Marcus passa a falar diretamente com as pessoas que participaram do atendimento da esposa. Ele menciona profissionais de enfermagem, instrumentação, anestesia e médicos que acompanharam a cirurgia. O viúvo afirma conhecer a identidade dessas pessoas, mas não revela nenhum nome no vídeo. “Eu sei quem são vocês. Eu sei o nome de vocês”, afirmou.
Na sequência, porém, Marcus não fala apenas como alguém que procura esclarecimentos. Fala como marido de uma mulher que morreu aos 33 anos e como pai de três crianças que agora crescerão sem a presença da mãe. “Vocês têm família, vocês amam seus filhos, vocês sabem o que eu tô passando. Eu só quero que vocês falem a verdade. Eu não quero mais nada”, disse Marcus. E completou: “Soltem a mão e falem a verdade de tudo que aconteceu.” No encerramento, ainda abalado, Marcus endurece o discurso e afirma que poderá divulgar os nomes dos envolvidos caso considere que existam pessoas omitindo informações ou protegendo umas às outras. Até o momento, entretanto, nenhum profissional é identificado nominalmente no vídeo e Marcus não apresenta uma conclusão técnica que atribua a morte de Marta a erro ou conduta específica de determinada pessoa ou instituição.
Uma mãe que não voltou para casa
Para quem acompanha a história de fora, existem perguntas sobre procedimentos, condutas e o que ocorreu durante aqueles dias de internação. Para a família, entretanto, existe também uma realidade muito mais simples e dolorosa: Marta não voltou para casa. Aos 33 anos, ela deixou o marido e três filhos. Duas das crianças ainda são bebês e crescerão conhecendo parte da história da mãe pelas lembranças, fotografias e vídeos preservados pela família. Marcus agora tenta conciliar o próprio luto com a responsabilidade de cuidar dos filhos e, ao mesmo tempo, encontrar respostas para aquilo que afirma ainda não compreender sobre os últimos dias da esposa. Talvez por isso, apesar de toda a indignação presente no depoimento, a frase mais marcante do vídeo não seja uma acusação. É um pedido. “Eu só quero que vocês falem a verdade”, disse Marcus. Uma frase curta que resume a busca de um marido por respostas e a dor de três crianças que, desde agosto, precisam aprender a seguir a vida sem a mãe.
NOTA DO INFORMA CIDADE: As declarações reproduzidas nesta reportagem correspondem ao relato público de Marcus Vinicius sobre acontecimentos que afirma ter presenciado durante a internação de Marta Kelly. O relato não constitui comprovação de erro médico, negligência ou responsabilidade de qualquer profissional ou instituição. A determinação das causas e de eventuais responsabilidades depende de documentação, análise técnica e, quando cabível, apuração pelas autoridades competentes. O Informa Cidade mantém espaço aberto para manifestação do hospital e dos profissionais envolvidos.